domingo, 7 de julho de 2013

Bitcoin: a ameaça geek


Desde quando o homem se entende por homem, o dinheiro existe. Na verdade, qualquer coisa pode ser considerado dinheiro, desde que o homem atribua pelo menos duas qualidades: ser um bem econômico e possibilitar o cálculo econômico. Ser um bem econômico, entenda como um bem escasso, mas de preferência razoavelmente disponível. Já o cálculo econômico é entendido como a capacidade dos indivíduos em conseguir estimar (com alguma precisão) qual quantidade deste bem que é possível trocar por outros bens. Assim, um bem, seja ele ouro, sal ou prata, transforma-se em um meio de troca entre os indivíduos de uma sociedade de uma maneira muito natural, como pudemos ver acontecer em praticamente todas as civilizações. O motivo do surgimento da moeda, portanto, é claro: facilitar as trocas interpessoais, e aí os metais (ouro, prata e cobre principalmente) geralmente foram escolhidos pelo fato de, em poucas quantidades, carregarem grandes valores. É importante lembrar que a criação das moedas sempre foi um movimento espontâneo e descentralizado.


Os metais, para facilitar a pesagem, eram cunhados, ou seja, transformados em moedas com peso fixo. Os nomes das moedas são, geralmente, unidades de medida (primariamente) do peso do metal, como a libra, o dolar, o peso, o escudo, e muitas outras moedas.


Entretanto, por diversos motivos que não discutiremos aqui, os governos surgiram e, por sobreviverem dos impostos de seus governados, acabaram monopolizam a cunhagem e obrigando as pessoas a usar suas moedas (curso legal forçado). Com o tempo, os estados faziam a mesma moeda com pesos cada vez menores, causando a inflação para ter mais recursos e gastar como melhor lhe convir, e este tipo de moeda acabava perdendo seu valor e sua credibilidade (geralmente surgiam mercados negros de cunhagem).

Banco e depois governos, para facilitar as coisas, criaram cédulas e moedas que são imediatamente conversíveis por certas quantidades de metal - o famoso padrão-ouro. Alguns países também utilizavam o padrão-câmbio, onde os indivíduos podiam ir a currency boards trocar uma moeda por outra, em um câmbio fixo.


Em algum ponto da história que não vem ao caso, a maioria dos governos e seus bancos centrais resolveram abolir o padrão-ouro (e o câmbio), monopolizar a criação de cédulas, forçar as pessoas a usar sua moeda, e assim criar o fiat money, ou seja, definir que apenas um papel (ou no caso de hoje, muitas vezes, é também dígitos em computadores) é moeda (não sendo conversível por nada, apenas à boa vontade dos bancos centrais). Assim hoje, como druidas mágicos, os governos - detentores do monopólio em criar dinheiro - podem criar riqueza com um monte de papel, numa paráfrase de Hans-Hermann Hoppe. Os banco centrais, como excelentes intenções de prover o bem-estar para seu povo, criam papéis e dígitos para fazer com que os banco tenham mais papéis e dígitos em sua guarda, para que eles possam criar mais papéis e dígitos para emprestar para as pessoas para que elas possam gastar e investi-los e tornar-nos mais ricos e felizes (sistema de reservas fracionárias). Eles, os nossos benfeitores que trabalham nos bancos centrais, só esqueceram que este aumento artificial do dinheiro gerado por eles confundiram a premissa básica da atribuição da moeda: o cálculo econômico. O que antes, com o ouro, por exemplo, podíamos estimar agora não conseguimos mais, pois a oferta deste bem aumenta a bel prazer dos nossos benfeitores - maior oferta, resto constante, menor valor, e como os antigos reis eles manipulam nossa moeda e ainda nos forçam a usá-la.

Além disso, esta expansão de crédito conseqüente faz empresas ter empréstimos a juros mais baixos, que os leva a fazer investimentos onde não seriam sustentáveis sem a artificialidade gerada pelos banco centrais, e, com isso a mágica se volta contra o feiticeiro e nos encontramos na parte da crise do Ciclo Econômico.

Enfim, a moeda, que surgiu descentralizada e espontaneamente, agora é centralizada e artificial. Existe uma grande diferença entre intenções e resultados, que os bancos centrais não percebem.


Neste contexto apresentado (a grosso modo, entenda), surgiu algo o Bitcoin. Idealizada pelo pseudônimo de Satoshi Nakamoto em 2008 em um paper, a idéia foi colocada em prática no ano seguinte. Não diria que nasceu espontaneamente, mas está em sua concepção o fato de ser descentralizada. A principal vantagem Satoshi imaginou foi o fato de ter um bem de troca confiável, anônimo e totalmente independente dos devaneios de qualquer governo. A moeda eletrônica é um projeto open source (ou seja, o projeto é uma criação colaborativa), e é baseado no protocolo P2P (peer-to-peer). Sendo totalmente virtual, ela pode ser armazenada por um serviço online chamado bitcoin wallet, uma carteira virtual. Cada transação que é feita é transmitida via internet para diversos usuários que juntamente armazenam estas informações, o que evita a necessidade de uma base de dados central para registrar a transação (esta é a grande vantagem do P2P). As transações são enviadas para toda web onde são registradas pelos usuários da rede. Para evitar fraudes, as transações são criptografadas utilizando a técnica de chave pública. Este tipo de transação foi uma das grandes revoluções em termos de criptografia, e funciona basicamente desta maneira: você quer saber se a confirmação da transação (compra ou venda) é real. Para isso você envia para o vendedor (no caso que você seja o comprador) uma chava pública. Ele cria uma mensagem confirmando que ele está recebendo de você o valor acordado e encripta (isto é, transforma num texto indecifrável), que, neste tipo de criptologia, só poderá ser decriptado (transformado no texto original, inteligível) pela chave privada. Assim que você recebe o texto encriptado, só você pode, em teoria, decriptá-lo e, então, autorizá-lo para que seja divulgado na internet e confirmar a transação. A chave pública tem 256 bits, ou seja, 32 bytes. Isto pode representar um número que vai de 0 a 2^256, ou seja, de 0 a 1,16 x 10^77. É uma quantidade realmente grande de tentativas para alguém se aventurar (estima-se que é preciso 650 quinquilhões de anos utilizando premissas bem otimistas). A idéia é que a dificuldade de se cunhar os bitcoins sejam menos complicadas do que quebrar as chaves usadas para autorizar as transações. A cunhagem dos bitcoins segue brilhante idéia de que o aumento da oferta de moeda seja lento, gradual, descentralizado e independente. Este processo é um pouco mais complexo, mas extremamente sagaz. As transações que vão sendo realizadas e devidamente autorizadas se encontram registradas pelo P2P em blocos, que são encadeados para garantir que não haja transações incoerentes (pois quando uma transação é lançada via P2P na rede, ela precisa ser validada pelos usuários, que conferem a coerência da transação). Para realizar os encadeamentos dos blocos é preciso de um hash, que é como uma chave com os 256 bits, mas que tenha alguns critérios definidos pela plataforma. O hash vai sendo procurado em um processo de várias pessoas, na tentativa e erro, até que quem achar o valor que corresponda aos critérios da plataforma, além de conseguir encadear os blocos, é recompensado com a cunhagem algumas bitcoins (a quantidade de bitcoins recompensadas varia de acordo com uma programação definida na plataforma). Como cada vez é mais difícil criar os hashs, os novos encadeamentos dos blocos utilizarão hashs mais difíceis de se produzir, o que deixa a plataforma ainda mais segura, e que vai chegar num ponto onde nenhuma moeda é mais produzida.

Hoje o dinheiro não tem valor intrínseco, na verdade, tem só o valor do papel e da impressão, mas ele não tem o real valor que ele tem nominalmente. O bitcoin, na verdade, por mais que não pareça, tem valor intrínseco - que é o hash, ou seja, um código que vai poder ser confirmado em outras transações.

Existe um custo para se fazer transações, tanto no sistema atual de fiat money como no bitcoin (que no caso precisa de internet para ser validado). Mas lembro também que, fora as cédulas e as moedas (que representam uma parte muito pequena de toda a base monetária), o fiat money é feito eletronicamente. E o custo da inflação, ou melhor, a vantagem do bitcoin não ter inflação causada pelo aumento governamental da oferta de moeda, pode suplantar os custos transacionais. Além disso, por ser uma instituição open source, não há custos de intermediação, como a de empresas de cartão de débito ou coisa do gênero, que diminui o custo real da transação.

Outra vantagem é que, como as transações são criptografadas, é garantido o anonimato, diferente do fiat money, que tem as transações facilmente rastreadas. Vão dizer que isto facilita o mercado negro - eu concordo, mas o mercado negro é, sempre, uma falta de visão dos governos de uma demanda que existe (mas este não é um tópico adequado para este momento).

Há desvantagens, claro, como aquela pessoa que, ao invés de usar os serviços online de wallet, guarda os bitcoins em seu computador e estes dados são perdidos (seja por formatação, vírus ou descuido) - assim, estas moedas estarão perdidas para sempre (risco que também corre o fiat money, com notas extraviadas, rasgadas ou perdidas).

Hoje, no Brasil, por exemplo, podemos apenas usar o real como moeda de transação e em contratos em geral (curso legal forçado). Assim, não temos liberdade de opções, por exemplo de recebermos pagamentos em euro ou em dólar. Com isso, o banco central não tem concorrência (e assim eles podem manipular da maneira que eles quiserem). É neste tipo de ambiente que, talvez, o bitcoin tenha mais força, pois não é uma moeda de fácil controle do curso forçoso de uma moeda que está na internet (descentralizada). Na Argentina, por exemplo, que ninguém acredita no peso, o dólar tem um valor no mercado negro muito diferente do câmbio oficial, e o bitcoin poderia ser muito bem recebido, suprindo esta lacuna. Se o bitcoin "pegasse", seria uma grande ameaça aos bancos centrais e aos maus governos, que forçaria uma responsabilidade fiscal para não ter que recorrer aos artifícios monetários para cobrir seus rombos.

Agora, o que seria preciso para o bitcoin "pegar"? Já discutimos que ele, de certa forma, tem valor intrínseco (o hash). O que falta a ele é o uso, para que as pessoas que transacionam com bitcoins possam saber qual quantidade dele pode comprar o quê. Talvez ainda falte algumas idéias para melhorar as compras no dia a dia (hoje a maioria das entidades que aceitam bitcoins são lojas virtuais) - aplicativos de smartphone já existem - só é precisa mesmo uma adesão que pode vir aos poucos - especialmente quando as pessoas entenderem que, com ele, você está protegido tanto de espionagem (criptografia) quanto de inflação governamental (descentralização). Com estes benefícios, podemos ter uma moeda muito melhor em relação as outras do mercado.

Um comentário:

  1. Boa Casson! Agora entendi a origem do termo "cunhado". Faz todo o sentido!

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